Exportação de energia, térmicas e subsídios reacendem debate sobre custos no setor elétrico

O Ministério de Minas e Energia abriu consultas públicas para discutir novas regras de exportação de energia elétrica interruptível para países vizinhos, especialmente Argentina e Uruguai. A proposta envolve tanto usinas hidrelétricas quanto termelétricas e surge em meio ao crescimento da geração renovável no Brasil e às dificuldades de operação do Sistema Interligado Nacional (SIN). Segundo o governo, o objetivo é aproveitar excedentes energéticos, ampliar a integração regional e gerar receitas adicionais sem comprometer o abastecimento interno.

O centro da discussão está na chamada Energia Vertida Turbinável (EVT), energia produzida por hidrelétricas que, em determinados momentos, não consegue ser consumida internamente nem escoada para outras regiões do país. A proposta do MME é permitir que esse excedente seja exportado em janelas específicas, aproveitando períodos de sobra hídrica e reduzindo desperdícios operacionais. Na prática, o governo tenta transformar energia excedente em receita econômica, utilizando a complementaridade entre os sistemas elétricos sul-americanos.

Mas o debate vai muito além da exportação em si. Especialistas do setor alertam que o tema se conecta diretamente às contradições estruturais do modelo elétrico brasileiro. O país expandiu rapidamente sua geração solar e eólica nos últimos anos, mas a infraestrutura de transmissão e armazenamento não acompanhou o mesmo ritmo. Isso tem provocado fenômenos como o curtailment — cortes obrigatórios de geração — e congestionamentos no sistema. Em paralelo, aumentam os custos relacionados à operação elétrica, acionamento de termelétricas e manutenção de subsídios setoriais, muitos deles pagos diretamente pelos consumidores na conta de luz.

Outro ponto sensível envolve as usinas termelétricas, especialmente as movidas a carvão mineral e gás natural. O governo também discute ajustes regulatórios para exportação envolvendo essas usinas, ao mesmo tempo em que leilões de reserva de capacidade continuam prevendo contratação de térmicas para garantir segurança energética. O problema é que parte significativa dessas usinas opera com custos elevados e forte impacto tarifário. Há críticas crescentes no setor sobre a permanência de subsídios e contratos considerados caros em um país que já possui ampla expansão renovável.

Nesse cenário, entidades de defesa do consumidor passaram a questionar como os benefícios econômicos da exportação serão distribuídos e qual será, de fato, o impacto para a população brasileira. O receio é que custos sistêmicos, encargos e subsídios continuem sendo socializados na tarifa, enquanto os ganhos financeiros fiquem concentrados em determinados agentes do mercado. O debate evidencia uma tensão crescente no setor elétrico brasileiro: de um lado, a necessidade de modernização, integração regional e transição energética; do outro, a pressão por justiça tarifária, transparência regulatória e redução das distorções que pesam sobre a conta de luz do consumidor.