Um dos fenômenos mais recentes — e menos intuitivos — do setor elétrico brasileiro é o chamado “paradoxo da abundância”: momentos em que há energia disponível, mas ela não pode ser plenamente utilizada. Esse cenário, que contraria a lógica histórica de escassez energética, já se manifesta com frequência crescente em regiões com alta concentração de geração renovável, especialmente no Nordeste.
Dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico mostram que episódios de curtailment — cortes obrigatórios na geração — vêm se intensificando desde 2022. Em determinados períodos de 2023 e 2024, usinas eólicas e solares foram instruídas a reduzir sua produção não por falta de capacidade de geração, mas por limitações operacionais do sistema, incluindo restrições na rede de transmissão e baixa demanda em horários específicos.
Esse excesso ocorre, sobretudo, em momentos de forte geração combinada com consumo reduzido. Um exemplo típico são as tardes de alta irradiância solar, quando a produção fotovoltaica atinge seu pico enquanto a demanda ainda não alcançou os níveis do início da noite. Segundo dados operacionais do Operador Nacional do Sistema Elétrico, essas variações podem ocorrer em questão de horas, exigindo intervenções rápidas para evitar sobrecarga e desequilíbrio na rede.
A concentração geográfica da geração agrava o problema. Estados do Nordeste concentram grande parte dos parques eólicos e solares do país, enquanto os principais centros de consumo estão no Sudeste. De acordo com estudos da Empresa de Pesquisa Energética, a expansão da transmissão não tem acompanhado, no mesmo ritmo, o crescimento da capacidade instalada, criando gargalos no escoamento da energia.
O impacto desse fenômeno não se limita à operação técnica. Informações da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica indicam que o aumento do curtailment pode influenciar diretamente a formação de preços no mercado de curto prazo (PLD), além de gerar distorções contratuais e custos adicionais. Em alguns casos, geradores são obrigados a interromper a produção mesmo estando aptos a gerar, o que compromete a eficiência econômica do sistema.
Outro efeito relevante é o desperdício de energia limpa. Relatórios recentes do setor indicam que volumes significativos de geração renovável deixam de ser aproveitados por limitações estruturais. Esse cenário levanta um debate estratégico: não basta expandir a geração — é necessário garantir que ela possa ser plenamente integrada, armazenada ou redistribuída.
Nesse contexto, o paradoxo da abundância revela uma mudança estrutural no setor elétrico. O desafio deixou de ser apenas produzir energia e passou a ser gerenciá-la com inteligência, flexibilidade e infraestrutura adequada. Sem investimentos em transmissão, armazenamento e sistemas mais sofisticados de coordenação, a abundância energética pode se transformar em ineficiência — e até em risco à estabilidade do sistema.
Fontes e dados utilizados
Operador Nacional do Sistema Elétrico
Empresa de Pesquisa Energética
- https://www.epe.gov.br
- https://www.epe.gov.br/pt/publicacoes-dados-abertos
- https://www.epe.gov.br/pt/publicacoes-dados-abertos/publicacoes/plano-decenal-de-expansao-de-energia
